segunda-feira, 30 de junho de 2008

Emerson

" É preciso tomar as pessoas em doses muito pequenas."

Olá! Adeus!


domingo, 29 de junho de 2008

DOMINGOS ESCOLHIDOS, cont.

A seguir, o Compota de pêssego disse-me o seguinte:
- Sou o que é vulgar chamar-se um rapaz novo. Tenho o cabelo louro um tanto ondeado e os olhos azuis. Possuo alguma coisa de meu, não estou mal fornecido de roupa branca e de cor, andei em várias mestras e mestres até há dois anos e tenho um suficiente hábito da sociedade, que frequento com certa assiduidade. No que diz respeito a mulheres, fui conhecendo várias, gordas, magras e entremeadas e assim tem decorrido o meu tempo sem extravagâncias nem complicações de maior. Acabo, porém, de passar um mês numa praia e aí travei conhecimento com certa senhora razoavelmente bonita, razoavelmente inteligente, que pareceu interessar-se bastante por mim e estar disposta a interessar-se mais ainda. Dá-se, porém, a circunstância da senhora não ser livre e antes legitimamente ligada a certo sujeito que padece do bofe e tem cara de almoçar amiúde fígados de leão. Dada a minha inexperiência da vida, que não hesito em confessar, estimaria que o meu excelente amigo, para quem os atalhos da existência já não têm segredos, me respondesse sinceramente: - "Valerá a pena?"
O Compota de pêssego mirava-me com os seus olhos azuis. A fresca brisa que corria, brincava nas ondas do seu cabelo louro e eu mandei vir para mim um pipermint verde com água do Luso, uma pedra de gelo e uma palhinha.
Depois de ter reflectido um pedaço e chupado metade do meu refresco, respondi-lhe com o coração nas mãos:
*** Continua***

quarta-feira, 25 de junho de 2008

De saída!

Deixei de o ouvir e pedi a alguem que encostasse o ouvido ao meu peito.
Fiquei a saber que fez as malas e se foi embora.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

domingo, 22 de junho de 2008

DOMINGOS ESCOLHIDOS, Singularidades de um rapaz louro

" Começou por me dizer que se chamava Calixto, que tinha vinte e três anos e que o tratavam pela alcunha de Compota de pêssego.
O seu nome de baptismo aborrecia-o, porque, quando por ele o interpelavam nas casas de jogo, todos os batoteiros o fitavam com olhar rancoroso. Andava desconsolado com os seus vinte e três anos, pois lhe pareciam poucos para ser alguém na vida. Quanto à alcunha achava-a idiota e estimaria saber quem lha pusera para lhe assentar sem preparo um directo no céu da boca.
Expliquei-lhe que os cavalheiros que perdem dinheiro à batota, além de serem pouco astutos, ignoram totalmente o grego. Se assim não fosse, saberiam que, na língua falada por Sófocles, Eurípides, Aristófanes e outros sócios do núcleo de autores dramáticos da A. C. T. T. de Atenas, Calixto significa "o mais formoso" e nunca "sujeito que devia ir dar uma volta porque tem os pés frios". Em relação aos vinte e três anos, aconselhei-lhe que tivesse paciência, porque havia de passar-lhe. Eu também os tive, nada fiz para me curar, viajei um tanto ou quanto e, de repente, sem dar por isso, achei-me com trinta e dois e saudades por vezes do mal que nesta altura aflige o nosso amigo. Quanto à alcunha, contei-lhe que, nos meus tempos de cadete, me chamavam Perninhas de aranha. Isso não me impediu de ir com as tais pernas aracnídeas a sítios onde muitos não foram e de mandar outros na boa gâmbia a locais onde não tenciono ir.
***continua***

sábado, 21 de junho de 2008

UM, DOIS, TRÊS

Há um bom tempo comprei umas botas. Foi amor à primeira vista, assim que as experimentei, gostei de me ver com elas. Calcei-as e nunca mais as larguei, fizesse calor ou não.
Mas, um dia, apercebi-me que tinha uma pedra na bota esquerda. Não sei quanto tempo lá andou até eu dar por ela, nem sei quanto tempo mais andou depois de eu a descobrir.É que, para tirar a pedra, tinha de descalçar a bota, e eu não fazia isso nem para dormir.
No entanto, chegou o dia em que tive que a descalçar, pois o pé já sangrava e a dor, que começara pequenina, latejava impiedosamente.
O meu maior desgosto foi quando, depois de ter deitado fora a pedra, a bota nunca mais me serviu...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

QUERO SER FELIZ OU TER RAZÃO?

"Nunca te justifiques.
Os amigos não precisam e os inimigos não acreditam."

quarta-feira, 18 de junho de 2008

TEMPOS DE IGNORÂNCIA

Ignoro porque continuo a lembrar-me de certas coisas e de outras não...
Lembro-me de chorar no primeiro dia de escola, mas já não me lembro do meu primeiro beijo. O sabor desse veio misturar-se com todos os seguintes, de maneira que apenas me lembro do último que dei.Rápido, querendo ser demorado...
Podia ter beijado mais, mas havia pressa, agora consigo recordá-lo, decompô-lo e senti-lo.
Daqui a pouco não me lembrarei mais.

terça-feira, 17 de junho de 2008

"O ALEPH", JORGE LUÍS BORGES

"Em Roma conversei com filósofos que pensavam que prolongar a vida do homem era prolongar a sua agonia e multiplicar o número das suas mortes."

segunda-feira, 16 de junho de 2008

SENTIDO PROIBIDO

Procuro um
sentido
para o que tenho
sentido
e o que
sinto
é um sentimento
sem sentido
para os outros
os outros
que não
sentem
como eu
o que sabem
os outros?
Não têm
o sexto sentido
que tem sido
conhecido
e conseguido
e que sem ti
não tem sentido

sábado, 14 de junho de 2008

POEMA PARA SAFO







"Colhe o dia, e depois guarda-o todo na memória

porque tão pouco as flores colhidas fenecem no nada.

Espalham-se as pétalas a colorir o chão

ou leva-as consigo o vento de entre os dedos frouxos.

Também o solo e o vento transformam-nos os dias,

mesmos os nossos dias das dores de sol a sol,

memória a memória findos e mudados."


Epístola para um relógio de sol que tem a inscrição carpe diem, Fiama Brandão

sexta-feira, 13 de junho de 2008

QUAL É O FRUTO DO PECADO?



Veio visitar-me e trouxe cerejas.
Pendurou um par delas em cada orelha minha, como se fossem dois brincos, depois aproximou a boca perto da minha cara e comeu-as, uma a uma.
Queria dar-me um beijo...

VAMPES E VADIAS, Camille Paglia

" O facto predominante da história sexual moderna não é o patriarcado, mas o colapso e desmembramento da velha família alargada, que deu lugar à família nuclear, unidade isolada que, na sua forma presente, é claustrofóbica e psicologicamente instável. A família nuclear só pode funcionar numa situação pioneira, quando o fisicamente àrduo trabalho agrícola mantém todos ocupados e exaustos da aurora ao anoitecer. A família nuclear de classe média, em que os pais são profissionais de colarinho branco que fazem um trabalho cerebral, fervilha de frustrações e tensões. Há sempre nas palavras uma carga de tensão, e a autoridade real está noutro lado, com os patrões no trabalho.(...)"

terça-feira, 10 de junho de 2008

O menino e o tempo

O Menino era bonito e bom e gostava muito da Mamã. Ela dizia sempre que o que mais queria era ter tempo!
Um dia, o Menino teve a ideia de comprar tempo para dar à Mamã. Foi à Loja do Mestre André e pediu um litro de tempo, mas o Mestre André disse que não tinha tempo para brincadeiras! O Menino achou que o senhor tinha sido muito mau, porque o tempo que ele queria também não era para brincadeiras, era para dar dar à Mamã!
Então o Menino pensou em ir ao Mini-mercado da Estrela, porque ela tinha muito mais coisas! Foi lá e pediu um kilo de tempo e a Sra. D. Estrela respondeu, carregada de riso, que ali não se vendia kilos de tempo. O Menino saiu e ficou muito chateado, porque afinal a Sra. D. Estrela não tinha assim tantas coisas como se dizia.
Então, o Menino encaminhou-se para o Supermercado Tem Tudo, porque lá havia muitas coisas que vinham de longe. Chegou lá e pediu um pacote de tempo e a Rapariga da Caixa disse, sem tirar os olhos do teclado, que o Menino tinha de ir para o fim da fila. O Menino ficou triste, porque a fila era muito grande e já estava a ficar escuro. Tinha de ir para casa jantar, senão a Mamã ia ficar preocupada, pois ele tinha andado todo o dia na rua!
Chegou a casa e a Mamã disse-lhe, muito contente, que tinha tido um dia muito bom, que tinha tido muito tempo!
O Menino chorou no quarto , por não ter sido ele a dar o tempo à Mamã.

domingo, 8 de junho de 2008

DOMINGOS ESCOLHIDOS

***
"Em 1919 morava eu em Paris, na Avenida Vítor Hugo, no segundo andar, por cima do célebre Potel e Chabot. Defronte havia a loja de monsieur Raoul, cabeleiriero de senhoras e cavalheiros. Em França, os merlans, como se diz em língua verde, só são conhecidas pelo seu primeiro nome, que arvoram pomposamente nas suas tabuletas. Era monsieur Raoul, quem tinha a honra de me cortar o cabelo. A sua loja era dividida por um tabique envidraçado. De um lado barbeava-se e tosquiava-se o sexo forte; do outro ondulava-se e oxigenava-se o sexo frágil. Certa tarde, eu dispusera-me a refrescar um pouco as minhas madeixas revoltas. Esperava tranquilamente o momento de ser " o senhor que se segue", - le premier de ces messieurs - e ouvia o patrão cavaquear com um cliente acerca da última corrida de Auteuil.
De súbito, a porta da rua abriu-se com estrondo. Monsieur Raoul acudiu ao chamado e achou-se na presença de uma senhora gorda, maquillée, de idade indefenida e voz acidulada, que queria ser ondulada imediatamente. Não era possivel, pois todos os gabinetes da secção feminina estavam ocupados. A senhora gorda indignou-se. Tinha marcado hora por telefone, chegava com um atraso de apenas quarenta e cinco minutos e, apesar disso, não podia ser servida. Monsieur Raoul desfazia-se em explicações e cada vez a senhora mais gritava, mais barafustava.
- C'est une indignité! - bradava ela.
Todas estas conversações tinham parado a até mesmo o ruído das tesouras. O dono da casa já não conseguia articular meia frase. A senhora, furibunda, ameaçava-o, não só de nunca mais pôr os pés naquele sale boîte, mas ainda em cima de falar a todas as amigas para que nunca sentissem a tentação de ali entrar.
Por fim, como Monsieur Raoul se limitasse a erguer para o céu desconsolados braços, a vieille dame deu costas , empurrou a porta envidraçada e abalou, rua fora, como um vendaval desencadeado.
O silêncio dos oficiaos e clientes aterrorizados era absoluto. Só eu me atrevi a ir junto de mestre Raoul, absolutamente esmagado pelo destino adverso e perguntar-lhe:
- Quem é esta senhora tão malcriada?
O pobre coiffeur olhou-me tristemente e explicou-me com cerimónia:
- É Madame Jeanne Hugo, a neta do grande poeta.
Foi então que compreendi o bem que tinham feito outrora em fechá-la no quarto escuro e o mal que o grande avô cometera levando-lhe marmelada às escondidas

sábado, 7 de junho de 2008

Colhe flores enquanto podes...


Um post para ostrasostrasloucas

E porque penso que estes meus posts de sábado se afastam do propósito do meu blogue sentimentaloidoliterário, aqui fica o "the last, but not the least", dedicado a estas amiguinhas:

Lista de clientes de uma Call girl


Ela: Boa noite, fala Ela Pimpinela! Em que posso ser útil?

Cliente: argh…rfff...pfff...blergh...

Ela: Eu estou a falar com?

Cliente: Saturnino Francisco Orelhas Pirilito

Ela:--------------------------

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Fragmentos

Lavo e perfumo os cabelos,
Que não são tocados por mão amorosa,
Teço lençóis de linho,
Onde não me deitarei com corpo alheio,
Cuido do corpo,
Que não gerará nenhum filho,
Cuido do espírito,
Que nunca se revelará.
Assim é minha existência,
Semelhante a pássaro,
A flor,
A pedra.

domingo, 1 de junho de 2008

DOMINGOS ESCOLHIDOS

Páginas vividas, André Brun
"Há na Arte de ser avô, de Vítor Hugo, um trecho que começa por este verso: Jeanne était au pain sec dans le cabinet noir...
Para aqueles que não tenham muito presente à memória esse poemeto do gigante do romantismo, eu resumo a história. Jeanne era, entre os netos, a preferida. Cometera uma das grossas maldades dos seus sete anos. Para castigo tinham-na fechado no quarto escuro, dando-lhe como única merenda uma fatia de pão seco. Mas o avô, às escondidas de toda a gente, foi levar à criminosa uma tartine com doce. Dali a pouco, soube-se tudo. A indignação foi geral. - É o senhor que estraga a crinça com mimo! - E como o velho avô baixasse uma orelha, contrita, acrescentaram: - Precisava também que o fechassem às escuras e lhe dessem pão seco todo o dia! - Então, Joaninha foi junto do avô e, trepando até lhe chegar ao ouvido, disse: - Deixa lá, avozinho! Quando estiveres de castigo eu te levarei pão com doce.
Quando eu tinha dez anos lia estes versos no colégio das irmãzinhas de S. Vicente de Paulo e sabia-os quase de cor. Também tinha um avô e também me fechavam às vezes num quarto sem janela.
***

Lista de clientes de uma Call girl

Ela: Boa noite, fala Ela Pimpinela! Em que posso ser útil?

Cliente: #$%&*+@£§}...........

Ela: Eu estou a falar com?

Cliente: Manuel Pila da Mata!

Ela:--------------------------