terça-feira, 23 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

DOMINGOS ESCOLHIDOS

"Depois, como o amor vive de fome e morre de saciedade, começará a notar que a usa deusa afinal não é tão bonita como você supunha. Verificará que o tornozelo é tanto ou quanto “sopeiral” e lhe faltam cinco pestanas na pálpebra do olho esquerdo. O senhor, que a considera agora razoavelmente inteligente, acha-la- á amiúde razoavelmente estúpida, porque agora é sempre da opinião dela e hão-de chegar depois momentos em que deseje, sem o conseguir, que ela seja da sua. No que respeita a epístolas notará que nunca há moços pelas esquinas, nem selos na tabacaria mais próxima, que a letra dela é muito mais inglesa do que é permitido pelas leis em vigor, que o seu bem oscila demasiadamente entre a ortografia antiga e a moderna e mantém com a sintaxe de construção relações superficiais e de simples cumprimento. Depois virão considerações sobre os ciúmes que a dama não deixará de manifestar, quanto mais não seja senão para o arreliar, sobre os que ela lhe inspirara na doce esperança de o prender melhor na sua teia" (...)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Ariadne e Teseu

Quem dera ser
Ariadne
e tu
Teseu!
Esperaria que te perdesses
pelo labirinto da vida;
o fio do novelo mágico
preso aos dedos nossos.
Tu te perderias,
nas esquinas, curvas e contra-curvas,
mas sempre encontrarias a saída.
Enrolas o fio de novelo,
e no fim,
aqui,
eu.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um poema possível

ARIANE
Agora falarei dos olhos de Ariane.
Falarei dos teus olhos, pois de Ariane
só talvez haja memória
entre as pernas de Teseu.
De Ariane ou não, os olhos são azuis.
Azuis de um azul muito frágil,
como se ao fazer a cor uma criança
tivesse calculado mal a água.
É um azul diluído, o azul dos teus olhos,
diluído em duas ou três lágrimas -
uma delas minha, pelo menos uma,
e as outras tuas, as outras de Ariane.
Falarei destes olhos. Os de Ariane,
deles deixarei que seja Teseu a falar.
Falarei desse azul que não vi em Creta,
pois passei a infância numa terra sem mar,
falarei desse azul que não vi em Naxos,
mas vi em Delfos onde, entre colunas,
passava os dias divinamente a fornicar,
indiferente ao oráculo de Apolo.
De resto, que deus grego não me aprovaria?
Que outra coisa se pode fazer na Grécia? (...)
Agora falarei dos olhos gregos de Ariane,
que não são de Ariane nem são gregos,
desses olhos que se fossem música
seriam a música de água dos oboés,
falarei apenas dos olhos do meu amor,
desses olhos de um azul tão azul
que são mesmo o azul dos olhos de Ariane.
(Eugénio de Andrade)

sábado, 13 de dezembro de 2008

Provérbio japonês


" O ausente torna-se menos íntimo de dia para dia."

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"Give me the words that tell me everything…"

Acende outro cigarro. Um atrás do outro. Senta-se, levanta-se, tosse, cospe.
Anda de um lado para o outro, as pessoas em redor olham-no, desconfiadas (já não há desgostos de amor).
Ele nem as vê. Só pensa nela. Sente saudades do tempo em que se riam um com o outro, se riam dos outros, se riam um do outro. Sentia falta da cumplicidade, do amor. Amava-a?
Não conseguia definir esse sentimento que tinha por ela…
Neste momento sentia-se egoísta e culpado de ter ajudado ao afastamento mútuo.
Depois de ter pensado no futuro, apercebeu-se que não se imaginava a viver com mais ninguém a não ser ela.
Recorda-se da naturalidade dela, em esgueirar-se por trás dele para terminar algo que ele não acabara…
Concluiu que ambos se amavam, mas que se tinham perdido um do outro, a monotonia, o cansaço do trabalho, as compras, as contas…
Quando chegar a casa, conversa com ela, pede desculpa. Começam tudo de novo, tudo vai ficar bem. Agora ele tem a certeza do que quer.
Segura na mala de viagem como quem segura a vida e regressa ao carro.
Parou para lhe comprar rosas. No caminho pensava no empadão que ela guardara. Não tinha muita fome, mas para a agradar ia comer o jantar que ela guardara com carinho…
As rosas cumpriram o seu destino.

domingo, 7 de dezembro de 2008

DOMINGOS ESCOLHIDOS

"Mas vamos agora à página Dever. Aqui amigo Calixto e louro, é que são elas, como dizia Napoleão ao ver surgir Blucher em Waterloo.
Passarei em claro os dois primeiros meses, porque nesses o meu amigo não terá mãos a medir para escriturar a página Haver e nem pelo espírito lhe passará a existência da outra.
Mas entremos no terceiro mês, em que você começa a sentir a tentação de pôr a sua escrita a limpo.
Em primeiro lugar, o meu caro Calixto agora é livre. Vai onde quer, levanta-se à hora que lhe apetecer, veste-se como o seu gosto indica, tem os seus hábitos certos, goza enfim dum bem altamente apreciável e que, como todos os bens, de resto, só apreciamos quando o perdemos: a liberdade. Há-de reparar, depois, que a sua vida mudou completamente. No dia em que tiver afazeres, forçoso será encontrar-se com ela. Quando lhe apetecer ficar à noite em casa, terá de ir ao teatro ou a u cinema odoro e insípido. Passará manhãs de sol inteiras em casa à espera de uma carta e tardes de chuva intermináveis à cuca de da madame numa esquina. Deverá abandonar certo colete de fantasia que o senhor estima como pessoa de família, porque ela o declara saloio e ridículo. Em compensação nem para se deitar poderá tirar uma gravata horrível que ela acha adorável e de que lhe fez presente. Descuidará dos seus amigos e, provavelmente, será levado a cortar relações com os melhores por serem da embirração da sua bem -amada.
Em resumo: dentro da tina, à mesa, quando fizer a barba ou andar à procura da risca do cabelo, de manhã, à tarde, à noite, terá sempre a preocupação que ela existe e isso é tremendo, meu prezado amigo.

sábado, 6 de dezembro de 2008

"Give me the words that tell me nothing…"

Sentada no chão, ao canto da sala, respira lentamente, tenta não chorar.
Lembra-se ainda do primeiro beijo e de como tudo parecia maravilhoso. Ama-o. A canção "It´s getting better all the time" parece escarnecer dela. Ao longo do tempo o amor pelo outro construiu barreiras invisíveis entre ambos.
Olha as estrelas através da janela e pergunta-se o que fez de errado. A culpa, sempre a culpa. A mea culpa.
Já passa da hora de jantar e ele não aparece. O empadão continua no forno, à espera de ser aquecido, tal como o coração dela.
Lembra-se do que sentiu quando conversaram a primeira vez e recorda os seus gestos habituais.
A torneira da casa de banho continua a pingar, irritando-a, mas nem essa irritação a obriga a mexer-se.
Pensa no que há-de fazer, "as palavras já estão gastas"; o mais acertado seria ir-se embora. Mas para ela seria tão doloroso. Muito mais doloroso do que aquilo porque passava há três anos. Por que é que o ser humano é tão comodista?! Dá dó vê-lo acomodar-se às situações mais insólitas.
Amava-o ou tinha medo de começar uma vida nova? Sozinha…Sempre tivera medo de mudanças e o medo de ficar sozinha aterrorizava-a.
Não conteve mais a tortura da incapacidade e chorou.
O telefone toca: era ele. A voz rouca e baixa. Havia interrupções na linha telefónica. Ele diz que está no aeroporto. Que está confuso. Ela pergunta-lhe, infantilmente, se ele vem jantar. Limpa as lágrimas e agradece ele ter telefonado. Desligam.
O silêncio parece engoli-la. Vagueia pela sala e tudo parece um sonho enevoado, daqueles em que apenas pensamos que aquela pessoa somos nós, mas podemos não ser.
Acende as luzes dos candeeiros. Contempla as fotografias, onde todos parecem estar felizes, e olhando não reconhece ninguém.
Depois de alguns momentos, entra na cozinha e deita o empadão fora. Arruma toda a louça, maquinalmente, perfeitamente.
Avança pelo quarto, abre as suas malas. Senta-se na borda da cama e sente um arrepio. A cama está gelada e emana um frio de morte. Nunca quereria dormir naquela cama enorme, sozinha.
Levanta-se e senta-se na secretária de pinho, arranja papel e caneta, escreve a data e, de repente, sentiu-se estúpida. Ela não tinha que dizer nada a ninguém. Não havia ninguém.
Abre a janela, espreita para fora, põe-se de pé e sai por ela, como se apanhasse um comboio.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A mulher japonesa e os seus mil encantos

"Como mãe, o sentimento da maternidade absorve-a inteira; não se compreende maior dedicação, maiores desvelos; é um instinto de ave, de rola passando os dias imóvel, dando calor à prole. O bebé é rei neste país. Ocupando-se metade do povo na indústria das quinquilharias, dos bonecos, dos bolos, do completo tesouro das crianças, e a outra metade, pelo menos na tarefa de fazê-las, parece indiscutível que a grande preocupação japonesa seja o bebé; o ar despótico do pequenino pimpão , todo em galas de sedas e enfeites, mesmo entre a gente pobre fala por si.
Nunca vi uma mamã bater no filho, ralhar com ele; os dedos finos só se estendem em afagos; e as bocas, junto das boquinhas, deliciam-se no beijo indígena, sorvendo os hálitos; é ele que ralha, que exige, que ordena, e que é obedecido. Os peitos brancos, ligeiramente pendentes, de cabra criadeira, oferecem-se solícitos, não sei por quantos anos; por fim, o leite deixa de ser um alimento, é uma carícia, um doce hábito, um tributo humildoso, que o garoto vem reclamar em grandes berros, indo depois saciar-se em frutos e pastéis. Numa carruagem de caminho-de- ferro, onde melhor se apanha em flagrante o viver íntimo, não é ocioso observar como a mãe vai julgando seu o espaço: aqui senta-se ela, defronte o seu menino, sobre fofas colchas e almofadas trazidas para o caso: segue-se o estendal dos embrulhos com bolos, com maçãs, com cavalos de pau, com cornetas de latão; e é um nunca acabar de passeios ora dando o peito sem recatos, ora conchegando as roupinhas, ora inventando diversões; e que os vizinhos se arranjem como possam, uns de encontro aos outros, conquanto que sobre campo para o rei, a quem todos devem obediência, o rei que além se vai rojando pelos bancos e molhando as fraldas..."
Wenceslau de Moraes, Antologia

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008