domingo, 29 de março de 2009

História de um minuto e meio

No princípio era a palavra.
Depois vieram os beijos.
No final voltou a palavra, mas feia!

quinta-feira, 26 de março de 2009

“Enrique Martín” in Llamadas telefónicas, Roberto Bolaño

“ Un poeta lo puede soportar todo. Lo que equivale a decir que un hombre lo puede soportar todo. Pero no es verdade: son pocas las cosas que un hombre puede soportar. Soportar de verdad. Un poeta, en cambio, lo puede soportar todo. Com esta covicción crecimos. El primer enunciado es cierto, pero conduce a la ruina, a la locura, a la muerte.”

sábado, 21 de março de 2009

Parabéns à Primavera, poesia e pessoas queridas...




Chamamento


Aqui em cima destas muralhas,
rodeada por cândidas rosas,
E aspirando brisa cálida,
O meu coração aperta-se
E as minhas coxas abrasam-se,
Tal qual uma donzela na sua torre milenar.
Escorre-me por entre as entranhas
Aquela seiva,
Que deixa no corpo o aroma a mulher,
Dias sem fim.
Como se esperasse marinheiro
ou bravo cavaleiro,
Deixo-me guiar por estas fantasias…
Fingindo ser nobre Dama
Que aguarda ser lançada em lençóis de seda,
Pela primeira vez.

terça-feira, 17 de março de 2009

POEMA POSSÍVEL


O meu orgulho, Florbela Espanca

“Lembro-me o que fui dantes, quem me dera
Não lembrar! Em tardes dolorosas
Eu lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos fez nascer rosas.

As minhas mãos, outrora carinhosas,
Pairavam como pombas… Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera
E porque os muros velhos não dão rosas!

São sempre os que eu recordo que me esquecem
Mas digo para mim: “Não me merecem …”
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!”

domingo, 15 de março de 2009

Fim da linha


Entrou no corredor e sentiu o mesmo arrepio gelado de sempre. Quer fosse Inverno ou Verão, o mesmo sentimento nauseabundo parecia congelar-lhe os ossos.
Ano após ano, de manhã à noite, tardes intermináveis percorria os corredores velhos e húmidos, as tábuas rangendo debaixo dos saltos altos, faziam um barulho incomodativo para os outros mas, para ela, era tão familiar, quase que surdo.
Caminha lentamente, arrastando-se até à sala de reuniões. Entra e vagueia com o olhar a minúscula e desconfortável sala. Ninguém para beber café, como seria de esperar. Encosta-se ao balcão, pega na chávena "liliputiana" com os seus dedos gordos e sopra insistentemente para o conteúdo líquido.
De repente, atrás do balcão, alguém suspira e ela suspira também, para dentro de si, sem ninguém ouvir. Começa mais um dia de tortura, mas sente-se resignada.
A mesma figura austera e de olhar penetrante fixa-lhe o rosto, capta-lhe a expressão e, por momentos, é como se com os seus olhos entrasse no cérebro dela e lhe apanhasse todos os pensamentos. Isso incomoda-a, sempre a incomodara. Mas agora era diferente. Nos seus 20 anos de serviço, aqueles olhos tornaram-se parte da sua vida. Tratava-se apenas de um quadro, o retrato do antigo Reitor, que ela nem chegara a conhecer. Nos primeiros tempos ficara atrapalhada, porque por mais que fugisse, por mais que mudasse de ângulo, os olhos, como se mexessem, perseguiam-na e acabavam por encontra-la, e às vezes encontravam-na dentro de si própria.
Acabou o café, rodou desajeitadamente sobre os pesados calcanhares e arrastou-se novamente pelo soalho de madeira até à sala de aula.
Sentiu o mesmo aperto de barriga, mas desta vez com menos intensidade. Tudo isto se tornara tão monótono! Entrou na sala, eles já lá estavam. Uns em pé, outros sentados em cima das mesas. Conversavam sonoramente, riam às gargalhadas e ela teve medo que fosse dela.
Quando subiu o estrado, este rangeu, abalado pelo "peso morto"e, só assim, eles deram conta que a "Miss Baleia" tinha chegado. Tinham sido avisados pela Reitoria para se comportarem, visto a debilitada senhora se encontrar em período depressivo, causado sabe-se lá porquê!... As senhoras na casa dos quarentas tinham sempre daqueles cheliques!
Tentaram acalmar-se, sentaram-se nos lugares e cochichavam só com o colega do lado. Ela, de costas para eles, começou a escrever no quadro, ouvindo os seus segredinhos e risinhos, que a faziam suar, e sentir como se estivesse prestes a ter uma quebra de tensão.
Eles gozavam com ela, riam-se dela. Do cabelo dela, da gordura dela, das roupas, dos sapatos, dos óculos…E ela estava farta! Olhou pela janela, estavam no terceiro andar de um dos velhos blocos. Havia uma janela com o vidro rachado, e o vento às vezes assobiava por ali. Mas, ela continuava a ouvi-los. Sorrateiramente, pegou na fina vara, com que costumava apontar no mapa, levantou o braço e, virando-se de repente, atirou o objecto pontiagudo para o fundo da sala, que perfurou a pupila de um dos inimigos.
Na sala ecoou o som de pele a rasgar e o grito do alvo, o resto continuou em silêncio. Todos os olhos alastrados pelas caras, e todas as bocas abertas num esgar de horror. A cara dele escorria sangue e os outros continuavam quietos.
Ela arrumou a sua pasta, passou as mãos pelo fato largo e engomado, virou as costas e saiu, fechando a porta atrás de si.
Chegou a casa, finalmente, pôs a água da banheira a correr, quente até encher.
Enfiou-se nela e apreciou cada minutinho de prazer. Vestiu um dos seus melhores fatos, penteou e secou o cabelo. Olhou-se ao espelho. O cabelo fiou demasiado "armado", fazia-a parecer mais gorda!
Pegou no livro que estava a ler, sentou-se na cadeira e esperou que a viessem buscar.

sexta-feira, 13 de março de 2009

"As cores do Outono – as folhas do “momiji” Wenceslau de Moraes




“Encantadoras florestas, encantador Outono!... E reparai: na Primavera, uma folhinha que espiga é a imagem da esperança; no Outono uma folha que cai é a imagem da saudade… Sois velho, como eu? Se o sois, haveis de convir comigo que, no campo do mistério psíquico das forças emotivas, entre a esperança e a saudade, a poesia desta última é bem mais arrebatadora, bem mais intensamente sentida. É bom rir…mas melhor é chorar, se a nossa sentimentalidade pode atingir, com a experiência da vida, o requinte supremo de se aprazer na dor! ...”

domingo, 8 de março de 2009

Blasfémia


Ela foi à Igreja.
Entrou, sentou-se e, não sabendo bem o que fazia ali, chorou.
Lamentou-se aos Deuses, deu-lhes a conhecer a sua miserável existência.
Chorou por ela, pelos seus pais, seus irmãos e pelos seus futuros filhos…
Procurou companhia na solidão dos crentes, procurou ouvidos para desabafar nas estátuas surdas dos crentes.
Ela não era crente!
Chorou, para ver se conseguia chorar tudo, aos pés de Jesus Cristo, que um dia já chorara por todos nós.
Chorou para ver se as lágrimas levavam todo o rancor, para não ter que gritar injúrias a Nossa Senhora, Mãe das Mães, mas não, de certo, Mãe da dela.
Chorou para tirar toda a fraqueza entorpecida do seu corpo, para ver se a força vinha ao de cima, para conseguir perdoar a todos os que a têm ofendido…
Ainda se lembrava do "Pai-Nosso" e, mesmo não sendo crente, recitou mentalmente essas palavras e elas pareceram-lhe a receita de um Ideal.
O sino bateu as 17h30 e foi como se ela acordasse de um sonho. Achou-se ali, ridícula figura, no meio daquelas beatas (talvez tão devotas quanto ela) e daqueles espanhóis curiosos.
Saiu dali com uma vontade enorme de urinar. E automaticamente pensou:- Que estranho! Costuma-se dizer que "quem mais chora, menos mija", confirma-se que, hoje eu serei a excepção à regra! Amén!
E rumou a casa mais aliviada!