terça-feira, 24 de junho de 2014

«Quem muito viu...» Jorge de Sena

"Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos, 
mágoas, humilhações, tristes surpresas; 
e foi traído, e foi roubado, e foi 
privado em extremo da justiça justa; 

e andou terras e gentes, conheceu 
os mundos e submundos; e viveu 
dentro de si o amor de ter criado; 
quem tudo leu e amou, quem tudo foi - 

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe 
em sorte como a todos os que vivem. 
Apenas não viver lhe dava tudo. 

Inquieto e franco, altivo e carinhoso, 
será sempre sem pátria. E a própria morte, 
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto."

segunda-feira, 23 de junho de 2014


De uma poesia, Jorge de Sena

"De uma poesia esperam
tanta cousa!
E logo desesperam
senão ousa.

Mas a poesia nada tem com isso.
Ela não diz nem faz,
nem está sequer ao teu, ao meu serviço.
Serão visões de paz,
aquilo que ela traz:
mas quanta guerra para falar nisso!

Uma só coisa ela será, se for
(e espera ou desespera
conforme o meu, o teu, o nosso amor):
Inverno ou Primavera,
e sempre uma outra dor."

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Poema Roubado

As mãos dadas, Jorge de Sena


"Um dia me falaste,
e as árvores morriam galho a galho seco.
Havia flores, recordo.
Havia ruas, ai também recordo.
E escadas
vazias.

Não me falaste, não. Fui eu quem perguntou,
beijando-te tremente, quantos anos tinhas,
e o teu nome.

Não tinhas nomes; ou tinhas, mas não teu.
E a tua idade, as tuas mãos nas minhas."